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Guia · Nível de Serviço

OTIF: o que é, como calcular e por que o seu número não bate com o do cliente

Por Guilherme MoraisAtualizado em 21 de julho de 202613 min de leitura

OTIF (On Time In Full) é o indicador que mede a fração de entregas que chegaram ao cliente no prazo e completas ao mesmo tempo. A exigência simultânea é o que o torna severo: uma entrega pontual mas parcial não conta, e uma entrega completa mas atrasada também não. É por isso que o seu OTIF costuma ser menor do que a intuição sugere.

As duas perguntas que o OTIF faz ao mesmo tempo

O indicador junta duas dimensões que costumam ser medidas separadamente:

  • On Time: chegou na data combinada, dentro da janela de tolerância acordada?
  • In Full: chegou com a quantidade integral que o cliente pediu, sem corte e sem entrega parcial?

O valor do OTIF está justamente em não deixar uma dimensão esconder a outra. É perfeitamente possível ter 98% de pontualidade entregando metade do volume pedido, ou entregar tudo com uma semana de atraso. Os dois casos são falhas de serviço, e só um indicador conjunto captura isso.

A fórmula que todo blog copia, e o que ela esconde

OTIF (%) = entregas pontuais e completas ÷ total de entregas × 100

A fórmula está correta e é quase inútil sozinha, porque as três palavras que importam ficam indefinidas: o que conta como entrega, o que conta como pontual e o que conta como completa. Mude qualquer uma dessas definições e o mesmo mês pode render números muito diferentes, todos defensáveis.

É por isso que discussão de OTIF em reunião costuma travar. Não é que alguém esteja mentindo: é que duas áreas estão calculando coisas diferentes com o mesmo nome.

Por que 97% e 97% não dão 97%

Este é o erro mais frequente em relatório de indicador. Se você tem 97% de On Time e 97% de In Full, o OTIF não é 97%. Quando as falhas são independentes, o resultado combinado é o produto:

0,97 × 0,97 = 0,9409, ou seja, aproximadamente 94%.

Reportar o menor dos dois componentes (97%) superestima o serviço em cerca de 3 pontos. Em operações com componentes mais baixos o desvio cresce: 90% e 90% resultam em 81%, não 90%.

A ressalva honesta: a multiplicação só vale exatamente se as falhas forem independentes. Na vida real elas se correlacionam (o pedido que atrasou é muitas vezes o mesmo que faltou item), e nesse caso o OTIF real fica acima do produto simples, porque as falhas se concentram nas mesmas entregas. Por isso a recomendação prática é sempre a mesma: calcule direto na base de pedidos, marcando cada linha como pontual e completa, em vez de multiplicar percentuais agregados.

Qual é o denominador do seu OTIF?

Esta escolha muda o resultado mais do que qualquer outra. Considere um pedido com 10 linhas, em que 1 linha atrasou:

Unidade de medidaComo contaResultado do exemplo
Por pedidoO pedido inteiro falha se qualquer linha falhar0% (o pedido inteiro é reprovado)
Por linha de pedidoCada linha é avaliada isoladamente90% (9 de 10 linhas ok)
Por unidade/volumePondera pela quantidade de cada linhaDepende do peso da linha que falhou

O mesmo mês, a mesma operação, e uma diferença de dezenas de pontos. A medida por pedido é a mais severa e a que mais se aproxima da experiência do cliente (para ele, o pedido chegou errado). A medida por linha é a mais usada internamente porque permite diagnóstico. Nenhuma é errada, desde que esteja escrita e congelada.

Data prometida ou data solicitada: a escolha que muda tudo

Quando o cliente pede para o dia 10 e a sua empresa confirma para o dia 14, e você entrega no dia 14: isso é pontual?

Contra a data prometida, sim, 100%. Contra a data solicitada pelo cliente, não, houve 4 dias de atraso na perspectiva dele. As duas medições são legítimas e medem coisas diferentes: a primeira mede se a operação cumpre o que promete, a segunda mede se a empresa atende o que o mercado pede.

Recomendação prática

Meça as duas, separadamente. A distância entre elas é um indicador em si: revela quanto a área comercial está aceitando prazos que a operação não consegue cumprir, ou quanto a operação está empurrando prazos que o cliente não queria.

Tolerância, entrega antecipada e parcial: as regras a escrever

  • Janela de tolerância: aceita entrega com 1 dia de atraso como pontual? E 1 dia adiantada?
  • Entrega antecipada: em muitos setores ela é falha, não acerto, porque o cliente não tem espaço para receber.
  • Entrega parcial seguida de complemento: conta como completa quando o saldo chega, ou a linha já está perdida?
  • Corte no aceite: a linha que você recusou na entrada do pedido sai do denominador ou conta como falha?

Essa última é a que mais gera divergência com o cliente, e vamos voltar a ela adiante.

Exemplo numérico: fechando o OTIF de um mês

Um mês com 620 linhas de pedido entregues, medindo por linha, contra a data prometida, com tolerância zero:

SituaçãoLinhas% do total
Pontual e completa (OTIF)53386,0%
Pontual, porém incompleta416,6%
Completa, porém atrasada325,2%
Atrasada e incompleta142,3%
Total620100%

Decompondo os dois componentes a partir da mesma base:

  • On Time = (533 + 41) ÷ 620 = 92,6%
  • In Full = (533 + 32) ÷ 620 = 91,1%
  • OTIF real = 533 ÷ 620 = 86,0%

Note que o produto simples daria 0,926 × 0,911 = 84,4%, um pouco abaixo do OTIF real de 86,0%. A diferença existe porque 14 linhas falharam nas duas dimensões ao mesmo tempo, ou seja, as falhas se concentraram. É exatamente por isso que multiplicar percentuais agregados é atalho perigoso, e calcular na base é o certo.

Por que o OTIF do cliente nunca bate com o seu

Três causas, quase sempre simultâneas:

  1. Data de referência diferente. Você mede contra a data prometida, ele mede contra a data que pediu.
  2. Denominador diferente. As linhas que você cortou no aceite sumiram da sua base, mas continuam na dele, contando como falha.
  3. Momento do registro. Você marca a saída ou a entrega no transporte; ele marca o recebimento conferido na doca, que pode ser no dia seguinte.

Reconciliar não é convencer o cliente de que o seu número está certo. É acordar por escrito qual data, qual denominador e qual momento valem para a relação, e então manter os dois cálculos: o interno, para gestão, e o acordado, para o contrato.

OTIF, fill rate e pedido perfeito: o que cada um enxerga

IndicadorMedeSeveridade
Fill rateSó quantidade atendida do estoqueMenos severo
OTIFPrazo e quantidade, simultaneamenteIntermediário
Pedido perfeitoPrazo, quantidade, documentação, avaria e demais condiçõesMais severo

Por construção, o pedido perfeito é sempre igual ou menor que o OTIF, que por sua vez é sempre igual ou menor que o fill rate da mesma operação. Se na sua empresa o OTIF está acima do fill rate, há erro de definição em algum dos dois.

Árvore de diagnóstico: seu OTIF caiu, e agora?

A decomposição diz onde olhar. Compare a queda dos dois componentes:

  • Caiu o In Full, o On Time ficou estável: o problema é de disponibilidade. Investigue estoque de segurança e nível de serviço, acurácia da previsão e ruptura de insumo.
  • Caiu o On Time, o In Full ficou estável: o problema é de execução ou promessa. Investigue lead time, capacidade de expedição, transporte e a data que a área comercial está prometendo.
  • Caíram os dois juntos: desconfie de causa comum a montante, tipicamente um plano de demanda que não conversou com capacidade. É sintoma clássico de ausência de ciclo de S&OP funcionando.

Quando a raiz é previsão ruim, vale medir antes de agir: a calculadora de acurácia mostra se o erro é grande, e a Autopsia de Forecast mostra se ele é viés sistemático (corrigível no nível) ou dispersão.

Metas, multas de rede e os primeiros 30 dias

Em varejo organizado, OTIF baixo não é só constrangimento: vira multa contratual e chargeback, e em casos recorrentes vira perda de espaço em gôndola. Isso muda a natureza do indicador, que deixa de ser operacional e passa a ser financeiro.

Um plano honesto de 30 dias, sem prometer resultado:

  1. Semana 1: escrever a definição. Denominador, data de referência, tolerância e tratamento de parcial. Uma página, assinada pelas áreas.
  2. Semana 2: recalcular os últimos 6 meses com a definição congelada, para ter série comparável. O número vai mudar, e tudo bem.
  3. Semana 3: decompor em On Time e In Full e classificar as falhas por causa raiz.
  4. Semana 4: atacar a causa dominante e levar a série ao ciclo mensal, com dono e prazo.

Repare que nas quatro semanas não há nenhuma ação de compra de sistema. O ganho inicial de OTIF quase sempre vem de definição clara e de causa raiz, não de tecnologia.

Perguntas frequentes

O que significa OTIF?
OTIF é a sigla de On Time In Full, ou seja, no prazo e completo. É o indicador que mede a fração das entregas que chegaram ao cliente na data acordada e com a quantidade integral pedida, ao mesmo tempo. Uma entrega que chega no prazo mas com quantidade parcial não conta como OTIF, e uma entrega completa que chega atrasada também não. É justamente essa exigência dupla e simultânea que torna o indicador severo e, por isso, útil.
Qual é a fórmula do OTIF?
A forma direta é dividir a quantidade de entregas que foram simultaneamente pontuais e completas pelo total de entregas do período, multiplicando por 100. A forma decomposta multiplica os dois componentes: OTIF = On Time (%) × In Full (%). As duas só dão o mesmo resultado quando as falhas de prazo e de quantidade são independentes entre si. Na prática elas se sobrepõem com frequência, então o cálculo direto sobre a base de pedidos é sempre o mais confiável.
Por que 97% de On Time com 97% de In Full não dá 97% de OTIF?
Porque as duas condições precisam acontecer juntas na mesma entrega. Se as falhas forem independentes, o resultado combinado é o produto das duas: 0,97 × 0,97 = 0,9409, ou seja, cerca de 94%. Muita gente reporta o menor dos dois componentes como se fosse o OTIF, e superestima o serviço em vários pontos. É um dos erros mais comuns em relatório de indicador logístico.
Qual é uma boa meta de OTIF?
Não existe número universal, porque a meta depende do denominador escolhido, da regra de tolerância e do setor. Comparar o seu OTIF com o de outra empresa só faz sentido se as duas usarem a mesma definição, o que raramente acontece. O uso mais produtivo do indicador é acompanhar a própria série ao longo do tempo, com a definição congelada, e usar a decomposição entre On Time e In Full para saber onde atacar.
Por que o OTIF medido pelo cliente é sempre menor que o meu?
Por três motivos que quase sempre coexistem. Primeiro, a data de referência: você costuma medir contra a data que prometeu, e o cliente mede contra a data que solicitou. Segundo, o denominador: o cliente conta o que ele pediu, incluindo linhas que você cortou no aceite e que sumiram da sua base. Terceiro, o momento do registro: você marca a saída ou o transporte, e o cliente marca o recebimento efetivo na doca. Reconciliar exige acordar essas três regras por escrito.
OTIF e fill rate são a mesma coisa?
Não. O fill rate mede apenas a dimensão de quantidade, a fração da demanda atendida a partir do estoque, e ignora completamente o prazo. O OTIF exige prazo e quantidade simultaneamente, então é sempre igual ou menor que o fill rate da mesma operação. Já o pedido perfeito costuma ser ainda mais severo, porque acrescenta outras condições como documentação correta e ausência de avaria.
OTIF: o que é, como calcular e por que o seu número não bate com o do cliente · Guia Estratégico